Vida
...a fatia mais doce da vida na mesa dos homens de vida vazia
Quando eu era mais novo, achava a primeira metade do século XX um período meio nebuloso. Não sei se por conta de novelas de época – quando escrevo, a que primeiro vem à mente é Éramos Seis, versão do SBT, que acompanhei com a minha avó – que retratavam a sociedade e a cidade de forma parcial e caricata, não sei se pelas aulas de História que quase nunca chegavam até o início século então vigente e, quando chegavam, o resumiam a Café com Leite. Então sempre havia um estranhamento quando assistia a um filme que se passava na década de 30 e, por exemplo, apareciam carros mais próximos aos nossos do que da carruagem sem cavalos que era o Ford T. Mesmo a ideia das grandes metrópoles me parecia algo mais recente, como se até a Segunda Guerra vivêssemos todos em vilas, umas ou pouco maiores que as outras.
Eu tinha uns 20 anos quando li Amerika, do Kafka, e a Nova Iorque dos anos 10 que ele descrevia já lembrava bastante a Chicago dos anos 30 do álbum do Tintim que se passa nos Estados Unidos. Ainda assim era um tanto difícil imaginar uma São Paulo metropolitana durante a infância dos meus avós paulistanos, vivida no subúrbio, no caso do meu avô, e num bairro operário, no caso da minha avó. Havia um buraco, um hiato, uma vida que acontecia à revelia de uma história que eu conhecia bem e parece que estou sempre repetindo. Devia ser mais ou menos a mesma época que eu conheci as fotografias que ilustram uma reportagem da edição de agosto de 1947 da revista Life sobre São Paulo. As imagens mais famosas retratam sobretudo o centro novo da cidade, do viaduto do Chá até a praça da República. Há uma foto incrível da Biblioteca Mario de Andrade sem grades e integrada com a praça, como deveria ser até hoje, os jardins do Anhangabaú e do Parque Dom Pedro, mas o grande destaque é o edifício Altino Arantes, recém-inaugurado, observado de vários pontos do Centro: símbolo de uma São Paulo cujo crescimento jamais seria controlado.
Não é de se surpreender que o fotógrafo judeu Dmitri Kessel tenha percebido como a silhueta da cidade seria cravada pra sempre com a inscrição do prédio do Banespa – morre um paulistano toda vez que alguém se refere a ele como “Farol Santander”. Uma das coisas fazem com que eu me sinta em casa é vê-lo de um ponto da cidade – muito além do Centro – que eu nem imaginava. Na Brigadeiro, na altura do Teatro Abril Renault, ele se impõe entre um corredor de prédios que parece feito para enquadrá-lo. No trânsito da Radial Leste, quando ele aponta é sinal de que quase chegamos. Na parte alta de Santana – “Alto de Santana” é uma farsa pra vender prédio brega –, aproveitando o descampado do Campo de Marte, a bandeira paulista em seu topo tremula lembrando ao subúrbio que a cidade está a poucos quilómetros.
Mas a minha imagem favorita, a ponto de ter se tornado um objeto de obsessão, não traz o prédio. Nela, uma São Paulo invernal parece suspensa entre a neblina e o concreto. Bem no meio, no primeiro plano, há um poste de ferro ornamentado, desses que ainda povoam o Centro, ladeando uma árvore magra, que sofre os efeitos de uma estação do ano que eu nunca imaginei que tivéssemos – sempre penso em como importamos a ideia de quatro estações bem definidas das zonas temperadas e só a repassamos, sem crítica alguma e com direito a flocos de neve representando o inverno.
O viaduto do Chá, com o Edifício Matarazzo à esquerda, corta a fotografia como uma linha do Equador e por baixo dele à rua se prolonga até se perder na névoa, que não deixa que enxerguemos nada além do Anhangabaú. Outros postes como o central espetam as calçadas, rentes ao meio-fio, e suas linhas retas contrastam com as formas arredondadas dos automóveis e com o arco do viaduto. Tudo é geometria e melancolia, incluindo as figuras humanas, de quem não vemos os rostos e que parecem caminhar em um ritmo que não existe mais.
A foto tem algo de sonho, me remete ao cartaz d’O Exorcista, mas parece mesmo saída de um filme noir, como se fosse uma cena perdida de Pacto de Sangue, rodado por Billy Wilder três anos antes. De alguma forma, ela me mostra uma São Paulo num estado diferente do rascunho de cidade e da ruína de metrópole, a dualidade que muitas vezes é tudo que acessamos.

Não sei. Penso nessa foto quase todos os dias e, de uma forma ou de outra, persigo essa São Paulo todas as vezes que saio de casa. Eu por pouco não a encontro quando caminho na garoa fina com um cigarro na boca, de preferência por ruas pouco iluminadas por resistentes lâmpadas amarelas. Os carros daqui a pouco serão todos elétricos, até os trólebus estão sumindo. Andando elegante por aí só mesmo o Cuenca. Mas há frestas de uma cidade viva. Talvez no fundo de um bar com um mural de azulejos perto do Oficina, numa sinuca sem nome descendo do Paissandu, talvez numa galeria labiríntica do Bom Retiro, numa doceria na Liberdade ou num laboratório fotográfico meio escondido num prédio modernista que só abre duas horas por dia. Bonita palavra, perseguir.




São Paulo é outra coisa
Não é exatamente amor
É identificação absoluta
disse o itamar
A saudade de algo que não vivi enquanto a cidade pulsa, alheia e veloz.
Obrigado por compartilhar o texto e fotos!